Mozistorias

O Peso da Pátria: Memórias de um Sobrevivente (Militar)

Dolly Nguenha

Sou um jovem de 23 anos. Terminei o ensino médio aos 17 anos e, no ano seguinte, concorri a uma das universidades mais disputadas do país, a UEM. Infelizmente, não admiti. Fiquei muito triste; não pensei que seria assim. Queria tanto ser universitário, mas a vida tem dessas coisas. Aceitei a dura realidade e procurei fazer algo ao invés de ficar em casa.

Fazia todos os "biscatos" da zona, até que um dia um vizinho me chamou. Ele disse que queria que eu trabalhasse com ele porque via força de vontade em mim. Ele era mecânico; aceitei e fui aprender o ofício. Trabalhei como mecânico por três anos e guardei dinheiro para poder entrar em Matalane ou na Academia Militar, pois o meu tio conhecia alguém lá e, para entrar, era necessário ter pelo menos 60 mil meticais.

Passados os três anos, já com o dinheiro na conta, resolvi entrar em contacto com o meu tio para agilizar o processo. Eu estava feliz porque trabalharia para o Estado e teria emprego para toda a vida; mal sabia que me estava a meter na "cova". Aos 22 anos, fui para a formação militar. Conheci vários jovens, fiz amigos e tudo mais. Esqueci-me de contar que eu tinha uma namorada, a Belinha. Gostava muito dela e havia prometido que, assim que voltasse da formação, iríamos oficializar a nossa relação perante as famílias.

Como prova de que fomos treinados para servir o país, fomos levados para Mocímboa da Praia. É sabido por todos que lá há terroristas, mas nada temi, pois sabia que estaria bem a lutar pela pátria e confiava em Deus. Fomos todos muito confiantes de que voltaríamos para casa salvos.

Chegámos a Mocímboa da Praia. No primeiro dia estava tudo calmo, mas no segundo as coisas começaram a ficar agitadas. Ali não se dorme. Basta anoitecer e são tiros para todo o lado. Eu só rezava e pedia a Deus proteção; afinal de contas, lutávamos por uma causa nobre. As coisas acalmavam quando o sol aparecia, mas, ao olhar ao meu redor, vi os corpos de dois irmãos meus, decapitados.

Meu Deus, nunca tinha visto algo do tipo. As lágrimas começaram a cair, mas parei e pensei: pensei em voltar para casa, mas decidi ser forte. Sou um homem "com as bolas no lugar", não podia desistir agora. Engoli o choro. Juntamente com os outros irmãos, carregámos o que restava dos corpos para o nosso acampamento. Foi um dia estranho; aquilo tudo era novo para nós e ficámos todos sem palavras. Um de nós tinha de dar a notícia aos familiares dos irmãos que morreram a proteger a pátria. O Moisés era o mais corajoso; foi ele quem ligou para contar sobre o desaparecimento físico dos nossos companheiros.

Horas depois, comecei a conversar com os meus colegas para descontrair. Falámos de várias coisas e rimos um pouco, mas o clima ainda era muito "bad". Passaram-se alguns meses e íamos sempre perdendo um ou dois irmãos. Faltava pouco para voltarmos para casa e a promessa de oficializar a relação com a minha noiva ainda estava de pé; falávamos quase todos os dias e a nossa união parecia cada vez mais forte. No acampamento, eu tinha três grandes amigos, os meus "bests". Fizemos planos: assim que voltássemos a Maputo, conheceríamos a casa uns dos outros e seríamos irmãos para toda a vida.

Certo dia, fomos escalados para uma mini-formação por ali mesmo. Éramos cinco: eu, o Moisés, o Paulito, o Beto e o Genito. Anoiteceu, vestimos o fardamento, ficámos em posição, pegámos as armas e fomos. Afinal, era uma emboscada. Fomos cercados por inimigos. Naquele momento, perguntei-me se o nosso chefe tinha algo a ver com aquilo. Será que ele traiu a pátria? Teriam informadores? Várias questões surgiram, mas era hora de agir. Eles começaram a atacar e, como já estava escuro, procurei um buraco e enfiei-me. Sabia que não conseguiríamos dar conta de todos. Graças a Deus, não me viram e saí ileso.

Mas e os meus irmãos? Os meus amigos? Eles foram-se. Consigo imaginar a dor que sentiram quando foram degolados. Paulito? Moisés? Onde estão vocês, heróis da pátria? Por que se foram tão cedo? Voltei ao acampamento para pedir ajuda para carregar o que restava dos corpos. Eu não conseguia voltar para lá; mal conseguia olhar. Só queria que fosse um sonho e que, ao abrir os olhos, visse os meus companheiros comigo. Fechei os olhos mil vezes, mas a realidade era cruel: eles tinham ido mesmo.

Não conseguia pensar em mais nada. Distanciei-me do telefone; precisava de ficar sozinho e não queria conversar com ninguém, nem mesmo com a minha namorada. Passado algum tempo, chegou a hora de ir para casa. Voltei a Maputo. Estava feliz, mas nem tanto, pois os companheiros com quem fiz planos ficaram lá, mortos da pior maneira possível.

A minha namorada recebeu-me no aeroporto e, ao ver os olhos dela brilharem, senti um conforto no coração. Respirei o ar de Maputo. Não quis apanhar um táxi; caminhei por toda a zona, pois vivo nos arredores do aeroporto, no bairro de Mavalane. Cheguei a casa e toda a família ficou feliz ao ver-me. Fizeram uma festa de "arromba". Eu aparentava estar feliz, mas a minha saúde mental estava destruída, destroçada.

Passado algum tempo, preparámos o noivado e lá fui noivar com a Belinha. Noivámos e ela engravidou. Passámos a viver juntos e, para não ter de voltar a Cabo Delgado, tive de casar com ela. Casámos e trabalhei cá em Maputo. A minha vida parece estar bem, mas de noite não durmo. Tenho pesadelos todos os dias. Sonho sempre com os meus irmãos de combate; não há madrugada em que não veja o corpo do Paulito estatelado. Já fui a vários psicólogos, mas nada muda. Já me contentei que terei de viver com isto; não há mais nada a fazer. Arrependo-me do dia em que deixei de ser mecânico para seguir este "sonho", pois ele acabou comigo por dentro. Não há nada pior do que estar com a saúde mental debilitada

Subscreve "Mozistorias" para receber atualizações diretamente na tua caixa de entrada
Dolly Nguenha

Subscreve Dolly Nguenha para reagir

Subscrever
Subscreve Mozistorias para receber atualizações diretamente na tua caixa de entrada