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Cicatrizes de março de 2007

Cicatrizes de março de 2007
Deolinda Nguenha

Dolly, Dolly, Dolly… Foi assim que o meu nome ecoava no pátio da escola velha (Unidade 27), em Mavalane.

A minha madrasta corria atrás de mim pois ouviam-se estrondos no céu. O que era? Ninguém sabia. Será que era o fim do mundo? Será que as trombetas do céu resolveram tocar? Era o apocalipse?

Era muito nova para saber, mas os mais velhos também não tinham respostas…

Foi no dia 22 de Março de 2007 que Maputo estremecia. Todos os residentes dos bairros reuniram-se num único espaço para pedir a Deus uma resposta; ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer. Eu tinha apenas 09 anos de idade e a minha mãe estava grávida de 5 meses. Consegui ver as lágrimas a escorrerem no rosto dela, sem saber o que fazer, com filhos pequenos e um na barriga. Comecei muito cedo a tomar a dor dos outros.

Pessoas corriam de um lado para o outro sem saber onde se esconder, e o meu desespero aumentava a cada segundo: o meu irmão mais velho estudava na Escola Secundária Estrela Vermelha e estava algures lá fora. Ele teve de caminhar quilómetros a pé, no meio daquele cenário de guerra ou sei lá o quê ,sem saber se a próxima explosão o alcançaria, e nós em casa, sem saber se ele chegaria vivo.

Os mais velhos diziam que aquele barulho os remetia ao tempo de Matsanga ( a guerra dos 16 anos). Já eram 17h quando as coisas se acalmaram. As redes sociais não estavam em alta naquela altura, não tínhamos acesso à informação sobre o que estava realmente a acontecer, todo o mundo estava às cegas e refém do medo.

Os estrondos pareciam acalmar e conseguimos voltar para as nossas casas. Ligámos a televisão no canal TVM e as notícias eram todas sobre o Paiol de Malhazine. Pessoas ficaram sem os seus membros superiores e inferiores. Pessoas ficaram sem teto. Foi um caos. Ninguém conseguiu dormir naquele dia; a noite foi longa e, em algumas famílias, todos dormiram na sala pois, se fosse para morrer, todo o mundo queria morrer junto.

No dia seguinte, conseguíamos notar o que o Paiol nos fez. O céu de Mavalane já não tinha fumo, mas o chão estava coberto de estilhaços e a nossa inocência tinha ficado para trás. Olhei para a minha mãe, para a barriga dela, e percebi que o mundo podia acabar num segundo. Ali, aos 09 anos, entre o eco do meu nome no pátio e os estrondos daquela tarde, eu soube o que era o medo. Sobrevivemos àquela noite longa, mas Maputo nunca mais foi a mesma.

E eu, a pequena Dolly, também deixei ali um pedaço da minha infância.

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Deolinda Nguenha

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Comentários

Um subscritor

Eu nem lembro, tinha somente 5 anitos.

6d
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